Em vários países é comum casos de câncer de orofaringe na população sexualmente ativa. O uso de preservativos e a imunização continuam sendo meios de prevenção da doença
Março de 2025 – Recentemente, o ator britânico Anthony Perriam foi diagnosticado com um câncer de cabeça e pescoço relacionado ao vírus do papiloma humano (HPV), e quase perdeu a língua. Atualmente, ele usa as redes sociais para conscientizar outros homens.
Historicamente, sabemos que esse tipo de vírus foi associado quase que exclusivamente ao câncer de colo do útero, que ocupa o terceiro lugar entre os cânceres mais frequentes nas mulheres, excluindo os cânceres de pele não melanoma. Isso ocorre porque esse tumor é altamente prevalente e, em cerca de 99% dos casos, está relacionado à infecção por HPV.
Cerca de 20% dos cânceres humanos são causados por vírus – e destes, 50%, segundo levantamento do Ministério da Saúde, são provocados pelo papilomavírus humano e infecta atualmente 9 e 10 milhões de pessoas no Brasil com estimativa que apareçam mais de 700 mil novos casos anualmente.
Existem programas bem estruturados de rastreamento para mulheres, como o Papanicolau, que reforçam essa associação histórica entre HPV e saúde feminina. Nos homens, porém, o HPV também pode causar câncer — principalmente de pênis, ânus e orofaringe — mas esses tumores foram, por muito tempo, menos reconhecidos como relacionados ao vírus. Outro fator importante é que não existe um programa de rastreamento estruturado para homens semelhante ao que ocorre nas mulheres. Nesse contexto, o mais importante hoje é ampliar a conscientização, a vacinação e o diagnóstico precoce das lesões associadas ao HPV.
Nos últimos anos, percebemos que isso começou a mudar já que HPV também está relacionado a uma proporção crescente de cânceres de cabeça e pescoço, especialmente em homens, o que tem ampliado a discussão sobre o impacto do vírus também na saúde masculina. É um vírus se instala principalmente pela relação sexual e a transmissão acontece via pele ou mucosas nas genitais, uretra, boca e ânus e canal anal, provocando verrugas anogenitais.
A doença acomete homens e mulheres praticamente na mesma proporção e, a depender do tipo de vírus e de sua persistência, pode evoluir para câncer. Nos tumores de cabeça e pescoço de forma geral, os principais fatores de risco historicamente são o tabagismo e o consumo de álcool.
No entanto, uma parcela crescente dos tumores da orofaringe — especialmente na base da língua, nas amígdalas e no palato mole — está associada à infecção pelo HPV, principalmente relacionada à transmissão durante o sexo oral. A mucosa dessa região possui criptas profundas, que funcionam como pequenas cavidades onde o vírus pode se alojar e persistir.
Essa característica facilita a infecção e a permanência do HPV nas células dessa região. Outro ponto importante é que, diferentemente do que ocorre no colo do útero, onde existe uma sequência bem definida de lesões precursoras, na orofaringe, geralmente, não observamos essas fases pré-cancerosas identificáveis clinicamente. Muitas vezes o tumor já se manifesta diretamente como lesão maligna, o que dificulta o diagnóstico precoce.
Estudos mostram que homens apresentam maior taxa de infecção oral persistente por HPV, o que aumenta o risco de desenvolvimento de câncer nessa região. Por isso, atualmente observa-se em vários países que o câncer de orofaringe associado ao HPV é mais frequente em homens do que em mulheres.
Formas de prevenção
Importante lembrar do uso de preservativos durante as relações sexuais e, de preferência com a mesma parceira/o, além de buscar a vacina como meio de prevenção primária, pois estimula a produção de elevada quantidade de anticorpos reduzindo muito o risco de contaminação pelos tipos de HPV.
Apenas mulheres grávidas, e pessoas que tiveram alguma reação alérgica grave, devem evitá-la. Meninos e meninas entre 9 a 14 anos de idade podem receber a vacina quadrivalente gratuitamente no SUS, pois continua sendo a forma mais eficaz de prevenção, já que protege contra os principais tipos de HPV associados a câncer e verrugas genitais.
Hoje a recomendação é que meninos também sejam vacinados, idealmente a partir dos nove anos, da mesma forma que as meninas. Isso é fundamental porque o HPV afeta ambos os sexos e a vacinação masculina ajuda a reduzir a circulação do vírus na população.
Alguns pontos importantes:
- Não é uma vacina anual;
- O esquema vacinal depende da idade:
- 2 doses para crianças e adolescentes entre 9 e 14 anos.
- 3 doses para quem inicia a vacinação mais tarde ou em grupos específicos.
Com relação às campanhas de conscientização houve avanços importantes, principalmente com a inclusão dos meninos na vacinação contra HPV e com maior divulgação científica sobre o vírus, porém, ainda estamos atrasados em relação a países que possuem altas coberturas vacinais, como Austrália, Reino Unido e alguns países europeus.
Nessas regiões, a vacinação já está produzindo queda expressiva de lesões precursoras e de alguns cânceres relacionados ao HPV. No Brasil, o grande desafio é ainda aumentar a cobertura vacinal e ampliar a informação sobre o HPV também nos homens, já que muitos ainda acreditam que esse vírus seja um problema apenas feminino.

Urologista e Coordenador do Departamento de Urologia Geral/IST da Sociedade Brasileira de Urologia de São Paulo.






