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Setembro verde: Sociedade Brasileira de Urologia de SP desmistifica mitos e alerta sobre a importância da doação de órgãos

A lista de espera continua crescendo e chegou a 73.877 pacientes em dezembro de 2025. O rim é o órgão mais aguardado, seguido por fígado, coração, pulmão e, à parte dos órgãos sólidos, a córnea. Infelizmente, a falta de informação é um dos entraves que levam a família a não concordar com a prática

Setembro de 2026 – No próximo dia 27, começa a campanha nacional de conscientização sobre a importância da doação de órgãos e tecidos em todo País.  Segundo o Registro Brasileiro de Transplantes (RBT), a taxa nacional de recusa familiar chegou a 45% em 2025 e, nos últimos dez anos, esse índice permaneceu acima de 40%, o que é considerado alto. O Brasil registrou o maior número de doadores de órgãos efetivos de sua história em 2025, com 4.335 pessoas tendo transplantado ao menos um órgão, o equivalente a 20,3 por milhão de população.

Em dezembro de 2025 havia 73.877 pacientes ativos em lista de espera entre órgãos e tecidos, alta de 12% sobre 2024 e cerca de 4.102 pessoas morreram aguardando um órgão ao longo do ano, , aumento de 9% em relação às mortes registradas em 2024.

Diante deste cenário, a Sociedade Brasileira de Urologia de SP, com mais de 50 anos de fundação, se une a outros grupos e associações de saúde para apoiar  e levar informações sobre o assunto. Com autoridade técnica, a ideia é desmistificar alguns mitos que ainda corroboram com esses dados e explicar que, a fila é auditada e não se fura; morte encefálica é irreversível; o corpo é reconstituído e o velório ocorre normalmente.

Dr. Wilson Aguiar

No entanto, é importante dar um passo atrás para compreender os motivos que ainda levam as famílias a desistirem da doação de órgãos. Na visão do Dr. Wilson Aguiar, Coordenador do Depto. de Transplante Renal da SBU-SP, um dos motivos mais frequentes, além da falha de comunicação, é a família não saber o que o falecido pensava sobre doação.

“Sem essa conversa prévia, o “não” vira a resposta mais segura no meio do luto. Somam-se a isso a dificuldade de compreender o diagnóstico de morte encefálica, questões religiosas e o desejo de manter o corpo íntegro, desconfiança no sistema e falhas no acolhimento hospitalar”, diz Aguiar.

De acordo com o Dr. Guilherme Patavino, Chefe do Departamento de Transplante Renal da Disciplina de Urologia da Escola Paulista de Medicina, as pessoas ainda não têm o costume de conversar sobre doação de órgãos em casa e com seus familiares. Com isso, acabam não procurando se informar sobre o assunto e, pior, acreditam em mitos ou informações falsas.

Dr. Guilherme Patavino

“Essas campanhas são fundamentais porque a informação é uma das principais ferramentas que temos para aumentar a doação de órgãos. Quando surge a possibilidade real de uma doação, em um momento de muita dor, essas dúvidas e inseguranças podem levar a família a não autorizar. Muitas pessoas ainda têm dificuldade para compreender a morte encefálica, além de existirem medos, crenças e dúvidas sobre todo o processo de doação”, diz o urologista Patavino, Mestre em Urologia.

Para a doação de órgãos, a pessoa precisa estar em morte encefálica, com os órgãos sendo mantidos funcionando com a ajuda de aparelhos. Isso significa que o cérebro parou de funcionar de forma completa e irreversível, sem nenhuma possibilidade de recuperação. “Existe um protocolo rigoroso, com avaliações feitas por médicos diferentes e exames específicos para decretar a morte encefálica. Uma vez que a família autoriza a doação, cabe à equipe especializada avaliar quais órgãos e tecidos efetivamente poderão ser doados”, explica.

O Dr. Wilson reitera que órgãos como coração, fígado e rins, só podem ser doados em caso de morte encefálica confirmada, com o paciente internado em ambiente de terapia intensiva e em ventilação mecânica. Já os tecidos, como córnea e pele, podem ser doados após parada cardíaca. “Em ambos os casos é obrigatória autorização por escrito de cônjuge ou parente até 2º grau, com duas testemunhas, e cada órgão passa por avaliação clínica antes de ser aprovado para doação”, afirma.

O órgão mais requisitado continua sendo o rim. Segundo o Registro Brasileiro de Transplantes de 2025, quase 39 mil pessoas estão na fila aguardando um transplante renal no Brasil. E um dado que chama bastante atenção é que mais da metade desses pacientes está no Estado de São Paulo.

“O transplante renal é a melhor opção de tratamento para muitos pacientes com doença renal crônica avançada. A ideia é proporcionar melhor qualidade de vida e a oportunidade de retomar muitos aspectos de uma vida normal, sem depender de uma máquina de diálise”, reforça Dr. Guilherme Patavino.

Regulamentação, amplitude e adesão em outros países

Em termos de legislação, seguem valendo as leis 9.434/1997 e 10.211/2001, que tornaram a autorização familiar obrigatória. Avançamos com a Lei 14.722/2023 (“Lei Tatiane”) que estabeleceu a Política Nacional de Conscientização e Incentivo à Doação e ao Transplante de Órgãos e Tecidos. O objetivo é ampliar a informação, combater mitos e estimular que esse assunto seja discutido na sociedade e até nas escolas, além de criar um regulamento técnico do SNT, além da Portaria nº 8.249/2025, com o programa de qualidade PRODOT – (Programa Nacional de Qualidade na Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes) foi lançado pelo Ministério da Saúde do Brasil.

“Nós temos um dos maiores programas de transplantes do mundo e o maior sistema público. No entanto, outros países conseguem resultados melhores na efetivação das doações devido a políticas locais de conscientização da população e mais investimento para organização do sistema. Por isso, essas campanhas são fundamentais porque a informação é uma das principais ferramentas que temos para aumentar a doação de órgãos. Elas ajudam a esclarecer dúvidas, combater informações falsas e, principalmente, estimular essa conversa em casa, com os familiares.”, afirma Patavino.

Em termos de comparação, no Paraná e em Santa Catarina a taxa de recusa gira em torno de 30%, contra os 40% da média nacional. Segundo Aguiar, nas regiões em que o programa é bem estruturado, equipe treinada para a entrevista familiar e bom acolhimento, a recusa cai.

“O Brasil não está atrasado em volume, é o 4º país em número absoluto de transplantes de rim e de fígado e tem o maior programa público do mundo. O atraso aparece na proporção: em doadores por milhão de habitantes, aí sim ficamos na 25ª posição entre 45 países”, explica Dr. Aguiar, que também é Chefe da Equipe de Transplante Renal do Hospital do Rim e da Rede D’Or em São Paulo.

 

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