Muita informação errada sobre saúde sexual ainda circula por aí… e a desinformação pode colocar a sua vida em risco!
Pensando nisso, o urologista Julio Zonzini preparou um conteúdo especial respondendo a 10 perguntas sobre as ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis).
Confira!
1) Houve uma queda de nascimentos na adolescência e aumento acima dos 40: as campanhas funcionaram?
Realmente houve uma mudança importante no perfil reprodutivo. Os nascimentos entre adolescentes caíram fortemente desde 1990 e, ao mesmo tempo, houve aumento expressivo de nascimentos em mulheres com 40 anos ou mais.
Um conjunto de fatores foram responsáveis por esta mudança: maior acesso à informação, aumento da escolaridade, mudanças socioculturais, além de melhor acesso a métodos contraceptivos eficazes e, em alguns casos, evolução e maior acesso a tratamentos de fertilidade. A educação sexual e o acesso facilitado a métodos contraceptivos também impactaram positivamente para a prevenção de gravidez não planejada.
2) Além de prevenir a gravidez, o preservativo reduz o risco de transmissão de Infeções Sexualmente Transmissíveis (ISTs). Quais são as principais?
A infecção sexualmente transmissível mais frequente no mundo é o HPV, seguido pelo vírus do herpes e, entre as infecções bacterianas, pela clamídia.
O preservativo é altamente eficaz quando a transmissão ocorre principalmente por meio de fluidos corporais, como sêmen, secreções vaginais e sangue. Dessa forma, oferece proteção elevada contra infecções como HIV, gonorreia, clamídia, sífilis, tricomoníase, ureaplasma, micoplasmas e hepatite B — sendo que, neste último caso, a vacinação é a principal forma de prevenção, com o preservativo atuando de forma complementar.
Quando utilizado corretamente e de maneira consistente, o preservativo reduz de forma significativa o risco de transmissão dessas infecções.
Entretanto, algumas ISTs são transmitidas principalmente por contato pele a pele, pele mucosa, ou mucosa mucosa, em áreas que o preservativo não cobre completamente. Nesses casos, ele reduz o risco, mas não elimina totalmente a possibilidade de transmissão. Isso ocorre, por exemplo, com HPV, herpes, sífilis (quando há lesões fora da área protegida), molusco contagioso e pediculose pubiana (chato).
Por fim, é importante destacar que muitas ISTs podem ser assintomáticas, permitindo que a pessoa transmita a infecção sem saber.
3) Quais são as principais vias de transmissão das ISTs e quais as novidades em contracepção? O preservativo continua tendo um papel central na prevenção?
As principais vias de transmissão das ISTs incluem:
- Relações vaginais, anais e orais, com ou sem penetração, dependendo do agente infeccioso.
- Contato direto entre os genitais, região anal, oral e mucosas, incluindo o pênis, a vagina, a vulva, o ânus e a boca, o que é especialmente relevante para infecções como HPV e herpes.
- Contato pele a pele em áreas íntimas, mesmo sem troca de fluidos.
- Exposição ao sangue, como ocorre em infecções como HIV e hepatites virais.
- Transmissão vertical, da mãe para o bebê, em situações específicas durante a gestação, parto ou amamentação.
É importante destacar que tanto homens quanto mulheres podem adquirir e transmitir ISTs por meio dos genitais, mesmo na ausência de sintomas, reforçando a necessidade de prevenção em todas as relações.
Com relação aos métodos contraceptivos, atualmente existem opções altamente eficazes para a prevenção da gravidez, como DIU, implantes hormonais, pílulas e injetáveis. No entanto, esses métodos não protegem contra ISTs.
Por esse motivo, para uma prática sexual segura, o preservativo externo ou interno continua sendo fundamental, devendo ser associado à vacinação contra HPV e hepatite B, além da realização de testagens periódicas, conforme a indicação médica.
4) Sintomas e sinais de alerta: por que é importante ficar atento, mesmo sem sintomas?
Muitas infecções sexualmente transmissíveis podem evoluir de forma assintomática, especialmente nas fases iniciais, o que significa que a pessoa pode estar infectada e transmitir a doença sem saber. Por esse motivo, a prevenção, o uso consistente do preservativo e a busca por avaliação médica em situações de risco são fundamentais.
Quando presentes, os sintomas mais comuns incluem:
- Corrimento uretral ou vaginal, ardor ao urinar, coceira e dor pélvica.
- Feridas ou úlceras genitais, verrugas, bolhas, dor durante a relação sexual e sangramentos fora do período menstrual.
- Dor ou inchaço testicular, dor anal, secreção ou sangramento retal, além de dor de garganta após sexo oral.
- Manchas pelo corpo, inclusive nas palmas das mãos e plantas dos pés, febre e ínguas, que podem ocorrer, por exemplo, na sífilis.
Alguns sinais indicam a necessidade de procurar atendimento médico de forma mais rápida:
- Dor pélvica intensa, febre e mal-estar importante, que podem sugerir doença inflamatória pélvica.
- Dor ou aumento de volume nos testículos.
- Feridas genitais que não cicatrizam.
- Gestantes com suspeita ou diagnóstico de IST.
Mesmo na ausência de sintomas, pessoas que tiveram exposição de risco, múltiplos parceiros ou suspeita de infecção devem procurar serviços de saúde ou centros especializados, onde poderão realizar exames, receber orientação adequada e, se necessário, iniciar o tratamento precocemente.
5) Sem tratamento precoce, as ISTs podem “sumir sozinhas”? Qual o impacto dessas doenças, se não tratadas adequadamente, no futuro do paciente?
Em geral, não é prudente esperar que uma infecção sexualmente transmissível “desapareça sozinha”. Algumas ISTs podem até apresentar períodos com poucos ou nenhum sintoma, mas muitas podem persistir no organismo e evoluir com complicações ao longo do tempo, quando não são tratadas adequadamente.
Entre as principais consequências estão:
- Infertilidade, dor pélvica crônica e gravidez ectópica, especialmente em casos não tratados de clamídia e gonorreia;
- Complicações na gestação e no recém-nascido, como ocorre, por exemplo, na sífilis congênita;
- Cânceres associados ao HPV, como os de colo do útero, ânus, pênis e orofaringe, além do impacto psicológico e social das lesões;
- Comprometimento da saúde geral em pessoas vivendo com HIV, especialmente quando o diagnóstico e o tratamento são tardios.
No caso do HIV, o início precoce da terapia antirretroviral é fundamental, pois permite controlar a infecção, preservar o sistema imunológico, reduzir complicações e impedir a transmissão. Quando o tratamento é iniciado tardiamente, há maior risco de infecções oportunistas, internações e pior qualidade de vida.
Por isso, o diagnóstico precoce, o acompanhamento médico e o tratamento adequado são essenciais para evitar sequelas e garantir melhores resultados a longo prazo.
6) Quais são as formas de tratamento das ISTs?
O tratamento das infecções sexualmente transmissíveis depende do agente causador da doença.
As ISTs de origem bacteriana e parasitária, como clamídia, gonorreia, sífilis e tricomoníase, são, na maioria dos casos, curáveis, desde que tratadas corretamente com antibióticos ou antiparasitários, conforme a orientação médica.
Já as ISTs virais, como herpes e HIV, em geral não têm cura definitiva, mas podem ser controladas de forma eficaz. No caso do herpes, o uso de antivirais reduz a frequência e a intensidade das crises. Para o HIV, a terapia antirretroviral permite controlar a infecção, preservar a imunidade e garantir qualidade de vida, além de reduzir a transmissão.
Em relação ao HPV, o tratamento é direcionado às lesões causadas pelo vírus, como verrugas, lesões subclínicas e alterações precursoras de câncer. A principal forma de prevenção é a vacinação, que reduz de maneira significativa o risco de infecção e de complicações futuras. A vacina também é fundamental na prevenção da hepatite B.
O diagnóstico precoce, o seguimento médico e o tratamento adequado são essenciais para evitar complicações e interromper a cadeia de transmissão.
7) Após o tratamento é necessário abstinência ou é possível retomar a vida sexual com proteção?
De modo geral, a recomendação é evitar relações sexuais até a conclusão do tratamento e a completa melhora dos sintomas, além de garantir que os(as) parceiros(as) também sejam avaliados e tratados, quando indicado. Essa conduta é fundamental para prevenir a reinfecção e interromper a cadeia de transmissão.
No caso de muitas ISTs bacterianas e parasitárias, como as uretrites causadas por clamídia, gonorreia, micoplasma, ureaplasma e tricomoníase, orienta-se aguardar um período mínimo após o término da medicação — geralmente em torno de sete dias, dependendo da infecção e do esquema utilizado — antes de retomar a atividade sexual.
Esse intervalo é importante para garantir a eliminação do agente infeccioso e reduzir o risco de transmissão e reinfecção.
Além disso, é importante não reiniciar as relações antes que o(a) parceiro(a) também tenha sido adequadamente tratado(a), mesmo que o paciente já esteja sem sintomas.
Após a liberação médica, a retomada da vida sexual deve ocorrer com o uso consistente do preservativo, reforçando as medidas de prevenção.
8) Existe alguma faixa etária com maior incidência de ISTs?
Sim. De modo geral, adolescentes e adultos jovens concentram uma parcela significativa dos casos de infecções sexualmente transmissíveis. Isso ocorre, principalmente, pelo início da vida sexual, maior rotatividade de parceiros e uso nem sempre consistente do preservativo.
No entanto, é importante ressaltar que as ISTs também estão presentes em outras faixas etárias. Atualmente, observa-se um segundo pico de casos entre adultos mais velhos, especialmente a partir da meia-idade e na terceira idade.
Esse fenômeno está relacionado a diversos fatores, como o uso de medicamentos para disfunção erétil, terapias de reposição hormonal, maior preocupação com saúde e qualidade de vida, além do surgimento de novas parcerias após separações, divórcios ou viuvez. Nesses contextos, muitas pessoas deixam de priorizar o uso do preservativo, por não haver mais preocupação com gravidez
Por esse motivo, a prevenção, a testagem e a orientação em saúde sexual devem ser mantidas em todas as fases da vida.
9) Qual é a IST mais comum entre mulheres e homens?
De forma geral, o HPV é a infecção sexualmente transmissível mais comum ao longo da vida sexual, acometendo mulheres e homens em frequências semelhantes. Em seguida, destaca-se o vírus do herpes, e, entre as infecções curáveis, a clamídia figura entre as mais frequentes.
A clamídia merece atenção especial por ser frequentemente assintomática, o que favorece sua transmissão silenciosa e o diagnóstico tardio.
Existe, na população em geral, a percepção de que as mulheres estariam mais expostas às ISTs, especialmente pela forte associação do HPV com o câncer do colo do útero. No entanto, é fundamental reforçar que ambos os sexos estão igualmente expostos ao risco de infecção.
Atualmente, observa-se também um aumento dos cânceres de orofaringe associados ao HPV, principalmente em homens, relacionados à transmissão por meio do sexo oral, o que evidencia que o impacto dessas infecções vai além do sistema genital feminino.
Por esse motivo, as estratégias de prevenção, vacinação, diagnóstico precoce e acompanhamento médico devem ser igualmente valorizadas por mulheres e homens.
10) Recomendações para o Carnaval — e que valem para o ano todo!
Para reduzir o risco de infecções sexualmente transmissíveis durante o Carnaval e em qualquer período do ano, algumas medidas são fundamentais.
O uso do preservativo em todas as relações sexuais — vaginais, anais e, sempre que possível, orais — continua sendo a principal forma de prevenção, devendo ser associado ao uso de lubrificante, que ajuda a reduzir microlesões e o risco de transmissão.
Manter as vacinas em dia, especialmente contra HPV e hepatite B, é outra medida essencial de proteção.
A testagem periódica, conforme o risco e a orientação médica, também é importante, já que muitas ISTs podem evoluir sem sintomas.
Deve-se ainda evitar o consumo excessivo de álcool e outras drogas, pois essas substâncias reduzem o julgamento, dificultam a negociação do uso do preservativo e aumentam comportamentos de risco.
Em situações de possível exposição, é fundamental procurar rapidamente um serviço de saúde ou centro especializado, pois existem estratégias de prevenção em casos específicos, como a profilaxia pós-exposição (PEP) para o HIV, que deve ser iniciada dentro de uma janela de tempo adequada.

- Titular da Sociedade Brasileira de Urologia
- Coordenador do Departamento de Urologia Geral | IST da SBU-SP
- Especialista em HPV






