Por Dr. Cristiano Gomes*
No mês em que lembramos da importância do diagnóstico e tratamento da incontinência urinária, é importante destacar os diferentes tipos de incontinência e como ela afeta a qualidade de vida, principalmente pensando no público idoso.
A disfunção é caracterizada pela perda involuntária de urina, ou seja, quando a pessoa não consegue controlar completamente a saída dela. Os sinais mais comuns incluem episódios de perda de urina ao tossir, espirrar, rir, fazer exercício ou levantar peso, bem como perdas associadas a uma vontade súbita e intensa de urinar que não consegue ser controlada.
De forma geral, os tipos mais frequentes são a incontinência urinária de esforço e a de urgência. A de esforço ocorre quando há perda de urina ao realizar atividades que aumentam a pressão dentro do abdome – como tossir, espirrar ou fazer esforço físico. Já a incontinência urinária de urgência acontece quando surge uma vontade súbita e muito forte de urinar, seguida de perda de urina antes de chegar ao banheiro. E, por fim, a mista, é quando os dois tipos anteriores acontecem na mesma pessoa.
A condição é mais frequente em mulheres, principalmente por fatores relacionados à gestação, parto e alterações hormonais ao longo da vida. Estudos populacionais mostram que, cerca de 25% a 40% das mulheres podem apresentar algum grau de incontinência urinária ao longo da vida. Nos homens, a prevalência é menor, variando em torno de 5% a 15%, dependendo da faixa etária.
Em muitos casos a incontinência urinária pode piorar progressivamente se não for tratada. Além do impacto direto na qualidade de vida, a perda de urina pode levar a constrangimento, isolamento social, depressão, redução das atividades físicas e alterações emocionais. Com o passar do tempo, os episódios de perda podem se tornar mais frequentes e intensos.
Em pessoas mais idosas, por exemplo, a urgência urinária também pode aumentar o risco de quedas ao tentar chegar rapidamente ao banheiro. Também é importante lembrar que, em alguns casos, a incontinência urinária não é apenas um problema isolado, mas pode ser sinal de condições mais graves. Isso pode acontecer, por exemplo, em pacientes com algumas doenças neurológicas ou em pessoas submetidas a cirurgias pélvicas extensas.
Nessas situações, o quadro pode estar associado a dificuldade de esvaziar adequadamente a bexiga, infecções urinárias graves e até risco de comprometimento da função dos rins. Por isso, identificar e tratar a incontinência urinária não é importante apenas para melhorar o bem-estar e a qualidade de vida, mas, também, para evitar complicações e reconhecer precocemente situações que exigem maior atenção médica.
A gestação e o parto são sim fatores importantes, mas não são os únicos. Outros fatores aumentam o risco de incontinência urinária, e incluem envelhecimento, menopausa, obesidade, diabetes, cirurgias pélvicas, doenças neurológicas, tosse crônica ou esforço abdominal repetido e prática de atividades físicas de alto impacto.
Exercícios e fisioterapia podem ajudar
Recomenda-se a fisioterapia pélvica como uma das primeiras medidas. Os exercícios pélvicos ajudam a melhorar o suporte da uretra e podem inibir as contrações indesejadas da bexiga, melhorando o controle da urina. Em muitos pacientes, principalmente nos casos mais leves ou moderados, eles podem reduzir bastante os sintomas ou até resolver completamente o problema. O acompanhamento por profissionais especializados costuma aumentar muito a eficácia do tratamento, porque permite orientar corretamente a execução dos exercícios e acompanhar a evolução.
Outros tratamentos
Nos últimos anos houve avanços importantes, com opções cada vez menos invasivas. Uma das tendências é o aumento do uso de tratamentos endoscópicos com agentes injetáveis, conhecidos como bulking agents. Nesse procedimento, substâncias especiais são aplicadas ao redor da uretra para melhorar seu fechamento. A técnica é pouco invasiva, pode ser realizada rapidamente e os resultados têm melhorado com o desenvolvimento de novos materiais.
Outra evolução é o uso do esfíncter urinário artificial em casos selecionados de mulheres, tecnologia já bastante conhecida no tratamento da incontinência masculina, e que vem sendo utilizada com bons resultados em situações específicas no sexo feminino.
Também houve avanços nas tecnologias de neuromodulação, que atuam modulando os nervos responsáveis pelo funcionamento da bexiga. Esses tratamentos podem ser indicados em pacientes com sintomas mais complexos, especialmente nos casos de urgência urinária que não respondem às terapias convencionais.
Diversos medicamentos podem ser usados para melhorar os sintomas urinários e a incontinência urinária de urgência. Quando os tratamentos conservadores são insuficientes, tratamentos cirúrgicos podem ser muito eficazes.

Urologista e atual presidente da Sociedade Brasileira de Urologia de São Paulo. Com vasta experiência e trajetória na área da saúde, é Professor de Urologia da Faculdade de Medicina da USP e Chefe de Clínica – Divisão de Urologia do Hospital das Clínicas da FMUSP, além de médico do Núcleo Avançado de Urologia do Hospital Sírio Libanês.






