*Por Adriano Fregonesi
Há alguns anos, um perfil novo começou a aparecer com frequência nos consultórios de urologia e endocrinologia. Não são atletas de alta performance, homens com queixas clínicas graves. E sim, homens jovens, na faixa dos 25, 30 anos, que chegam convictos de que precisam “regular a testosterona”.
Sabemos que, às vezes, é por indicação de um conhecido na academia, ou ainda por ver influencers indicando o uso nas redes sociais, e tem casos ainda de homens que já fazem uso e querem acompanhamento. No entanto, já se sabe que a testosterona é um hormônio com indicação médica legítima e bem estabelecida, mas a aplicação indiscriminada pode trazer malefícios para a saúde a média e longo prazo.
Estudos realizados no Brasil mostram que, o uso de esteroides anabolizantes entre frequentadores de academias, pode chegar a quase um em cada cinco usuários em grandes centros como São Paulo – e a proporções ainda maiores em grupos específicos, como estudantes e professores de educação física em algumas regiões do país.
No resto do mundo, estima-se que cerca de 3% da população já usou essas substâncias em algum momento da vida. A literatura médica internacional tem um nome para isso: epidemia silenciosa. No entanto, a Sociedade Brasileira de Urologia – Seção São Paulo faz um alerta importante, destacando que o hormônio não é suplemento, tampouco substitui hábitos saudáveis. Não é atalho para transformação corporal. E o preço do uso inadequado pode ser cobrado por anos — no coração, na fertilidade, no humor, na saúde como um todo.
Tratamento é uma coisa. Abuso é outra.
Quando um homem tem deficiência comprovada e essa é diagnosticada por exame laboratorial, avaliada dentro de um quadro clínico completo, o tratamento com reposição hormonal é recomendado por sociedades médicas nacionais e internacionais. Indiscutivelmente, ela traz benefícios documentados e pode ser feito com segurança sob supervisão adequada.
O problema é quando o uso é feito sem diagnóstico, sem que exista uma deficiência a tratar e, pior: em doses que superam em muito o que o corpo produziria naturalmente, com o objetivo de ganhar massa muscular, reduzir gordura, melhorar a aparência ou simplesmente “se sentir mais disposto”. Nesses casos, a testosterona não é remédio. É uma aposta arriscada com o próprio organismo.
Os efeitos sobre o coração são dos mais preocupantes: o uso crônico de altas doses de testosterona, acima de níveis supra fisiológicos, tem alterado a função cardíaca, endurecimento das artérias coronárias, elevação da pressão arterial, piora do colesterol e aumento do risco de infarto, AVC e trombose. Dados populacionais sugerem maior mortalidade prematura entre usuários – não uma associação teórica -, mas um dado observado em estudos com milhares de pessoas.
O fígado também pode ser afetado, especialmente com certas formas de esteroides orais, que chegam a causar lesões graves. Metabolicamente, o abuso pode favorecer resistência à insulina e acúmulo de gordura visceral; o oposto do que muitos buscam.
Mas, talvez o efeito mais contraintuitivo seja o que acontece no próprio sistema hormonal. Quando o organismo recebe testosterona de fora em excesso, ele interpreta como sinal para reduzir; ou simplesmente desligar; a produção própria.
O resultado pode ser: atrofia testicular, queda severa na produção de espermatozoides, infertilidade, e um período longo de hipogonadismo depois que o uso é interrompido. Disfunção erétil e queda da libido, especialmente na fase pós-ciclo, são queixas frequentes. Ou seja: uma substância que muitos usam para se sentirem mais potentes pode, com o tempo, produzir exatamente o oposto. Os efeitos sobre o humor e o comportamento também são reais. Irritabilidade, episódios de agressividade, ansiedade e depressão fazem parte do quadro, tanto durante o uso quanto, às vezes de forma mais intensa, na interrupção.
Nas mulheres, atenção redobrada
O uso de testosterona e outros anabolizantes entre mulheres cresceu nos últimos anos, especialmente em contextos voltados à estética e performance física. Isso merece atenção específica, porque alguns dos efeitos colaterais podem ser mais marcados do que nos homens – e nem todos reversíveis após a interrupção.
Crescimento de pelos, engrossamento da voz, alterações menstruais, queda de cabelo e outras mudanças de virilização podem se instalar de forma permanente. A evidência científica atual não suporta o uso disseminado de testosterona em mulheres, especialmente em formulações manipuladas com doses elevadas.
Há ainda um risco que muita gente não considera: a origem. Uma parcela significativa dos produtos anabolizantes circula fora dos canais regulados. Revisões sistemáticas sobre o mercado negro internacional mostram que uma proporção considerável dos produtos é falsificada ou subdosada; ou seja, o que está escrito no rótulo não é necessariamente o que está dentro do frasco.
O que fazer se você tem sintomas
Cansaço, baixa disposição, queda da libido, dificuldade para ganhar ou manter massa muscular – essas queixas são reais e merecem investigação. Mas têm muitas causas possíveis. Privação de sono, sedentarismo, alimentação inadequada, ansiedade, depressão, alterações da tireoide – a lista é longa, e a resposta nem sempre é testosterona.
O diagnóstico correto, com exame clínico e laboratorial, é o que permite distinguir deficiência real de sintoma com outra origem.
Se você usa ou considera usar testosterona sem indicação médica, ou se está usando e quer entender os riscos, procure o especialista. Fuja de profissionais que prescrevem sem examinar, mas sim um que avalie, peça exames, explique e acompanhe.

Urologista, Especialista em Andrologia e Membro da Sociedade Brasileira de Urologia – Seção São Paulo.






